Ela bateu com força na porta. A professora abriu a porta, um tanto assustada. Ela entrou. Ela não falava direito, e ela tentava falar. E ela falou, mas a professora não entendia direito. Ela chegou na classe mais de um mês depois do início do curso, sentou na frente, e logo perguntou qual o trabalho da disciplina. A disciplina era Problema Social, anote-se. A professora pediu para ela esperar, todo mundo já sabia de cor o trabalho, todo mundo já tinha, ou já deveria ter seu grupo de trabalho. Mas ela chegou um mês depois do começo do curso.
Em seguida, todos se dividiram nos grupos, a professora ia passar em cada um. E ela ficou sozinha, lá na frente. A professora já tinha explicado rapidamente o trabalho, ficara de voltar, e explicar melhor, e tratar de inseri-la em algum dos grupos, que já estavam todos formados. E a disciplina era Problema Social. E todos se entreolhavam, ela tinha um jeito inquieto.
De repente se levantou, bruscamente, foi para a fila de trás, em um dos grupos, não falou nada, ou quase nada, que desse pra ouvir mais de trás. Só pegou um dos livros, olhou, e voltou pro seu lugar. Ali já havia se tornado o seu lugar. E de alguma maneira era como se as pessoas tivessem uma reação neutra, mas que é como um neutro que já é negação, na neutralidade.
E não sei se ela já tinha planejado, se ela foi na aula só para isso, se ela reagiu naturalmente ao ambiente que se mostrou inóspito não na rispidez, mas na falta de acolhimento. Ela se levantou, pegou o pincel, e escreveu na lousa branca, em letras tremidas como seus movimentos – e eu nem queria imaginar o que ela estava escrevendo, porque era como se eu já soubesse, mas não quisesse ver de frente, eu olhei pra baixo, só vendo por cima dos óculos, e vi quando ela se voltou. Com coragem, mas reticente de ver o que já sabia que veria, levantei a cabeça e li suas letras tremidas, que na tremedeira já pareciam conter um pouco do seu próprio conteúdo:
Bulling: Ni Olvido, Ni Perdón
E primeiro eu me assustei, mas depois eu me calei, pra dentro. E fiquei mal, como se fosse culpado de todos os anos de falta de amigos, e de perseguição, de riso e sarcasmo que ela possa ter sofrido. Parece que pesou todos esses anos nessa frase, nessa ação simples, que pra mim foi extrema, foi um grito, foi desespero. Mas ela escreveu e voltou pro seu lugar. Como se não tivesse mais esperança de poder fazer alguma outra coisa, do que apenas reagir assim, e continuar. Como se ela tivesse abandonado qualquer esperança, porque ela já cansou de acreditar que as pessoas pudessem reagir diferente. E eu me senti mal, me senti todas essas pessoas, de todos esses anos, porque talvez eu tenha reagido igual a todas elas, porque exatamente eu não reagi. E me omitindo, eu agi ao contrario. Eu me senti todos, porque eu fui como todos. Seguimos omitindo, fingindo, olhando pra baixo, às vezes pra cima. Falta olhar pra frente. Às vezes me falta força pra olhar pra frente, porque olhar pra frente exige força pra ver o que temos à frente, porque essa visão pode nos cegar, e porque não basta olhar, é preciso estar consciente, e disposto, e livre. Isso é difícil. Me faltou força.
E me senti mal quando primeiro me assustei, porque só pensei em mim, porque tive medo de viver em Columbine, e pensei que na próxima aula queria sentar o mais perto possível da porta, tramando já um plano de escape, caso na próxima vez a violência ultrapassasse o verbal, e o pincel fosse substituído por algo que machuca, fisicamente. Mas o pincel machucou, porque me fez pensar tudo isso, porque eu pensei tudo isso de imediato, num lapso de memória ancestral pela sobrevivência. E depois eu saí um pouco de mim, tentei olhar pra frente, e me senti mal. Não estamos preparados pra olhar pra frente. Não estamos preparados para sentirmos o mal nascente que cada um guarda em si, e que cabe a cada um esconder em si, porque ficaríamos cegos se soubéssemos do que somos capaz quando somos ameaçados. E a aula era de Problema Social.