quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Porque me senti mal

Ela bateu com força na porta. A professora abriu a porta, um tanto assustada. Ela entrou. Ela não falava direito, e ela tentava falar. E ela falou, mas a professora não entendia direito. Ela chegou na classe mais de um mês depois do início do curso, sentou na frente, e logo perguntou qual o trabalho da disciplina. A disciplina era Problema Social, anote-se. A professora pediu para ela esperar, todo mundo já sabia de cor o trabalho, todo mundo já tinha, ou já deveria ter seu grupo de trabalho. Mas ela chegou um mês depois do começo do curso.

Em seguida, todos se dividiram nos grupos, a professora ia passar em cada um. E ela ficou sozinha, lá na frente. A professora já tinha explicado rapidamente o trabalho, ficara de voltar, e explicar melhor, e tratar de inseri-la em algum dos grupos, que já estavam todos formados. E a disciplina era Problema Social. E todos se entreolhavam, ela tinha um jeito inquieto.

De repente se levantou, bruscamente, foi para a fila de trás, em um dos grupos, não falou nada, ou quase nada, que desse pra ouvir mais de trás. Só pegou um dos livros, olhou, e voltou pro seu lugar. Ali já havia se tornado o seu lugar. E de alguma maneira era como se as pessoas tivessem uma reação neutra, mas que é como um neutro que já é negação, na neutralidade.

E não sei se ela já tinha planejado, se ela foi na aula só para isso, se ela reagiu naturalmente ao ambiente que se mostrou inóspito não na rispidez, mas na falta de acolhimento. Ela se levantou, pegou o pincel, e escreveu na lousa branca, em letras tremidas como seus movimentos – e eu nem queria imaginar o que ela estava escrevendo, porque era como se eu já soubesse, mas não quisesse ver de frente, eu olhei pra baixo, só vendo por cima dos óculos, e vi quando ela se voltou. Com coragem, mas reticente de ver o que já sabia que veria, levantei a cabeça e li suas letras tremidas, que na tremedeira já pareciam conter um pouco do seu próprio conteúdo:

Bulling: Ni Olvido, Ni Perdón

E primeiro eu me assustei, mas depois eu me calei, pra dentro. E fiquei mal, como se fosse culpado de todos os anos de falta de amigos, e de perseguição, de riso e sarcasmo que ela possa ter sofrido. Parece que pesou todos esses anos nessa frase, nessa ação simples, que pra mim foi extrema, foi um grito, foi desespero. Mas ela escreveu e voltou pro seu lugar. Como se não tivesse mais esperança de poder fazer alguma outra coisa, do que apenas reagir assim, e continuar. Como se ela tivesse abandonado qualquer esperança, porque ela já cansou de acreditar que as pessoas pudessem reagir diferente. E eu me senti mal, me senti todas essas pessoas, de todos esses anos, porque talvez eu tenha reagido igual a todas elas, porque exatamente eu não reagi. E me omitindo, eu agi ao contrario. Eu me senti todos, porque eu fui como todos. Seguimos omitindo, fingindo, olhando pra baixo, às vezes pra cima. Falta olhar pra frente. Às vezes me falta força pra olhar pra frente, porque olhar pra frente exige força pra ver o que temos à frente, porque essa visão pode nos cegar, e porque não basta olhar, é preciso estar consciente, e disposto, e livre. Isso é difícil. Me faltou força.

E me senti mal quando primeiro me assustei, porque só pensei em mim, porque tive medo de viver em Columbine, e pensei que na próxima aula queria sentar o mais perto possível da porta, tramando já um plano de escape, caso na próxima vez a violência ultrapassasse o verbal, e o pincel fosse substituído por algo que machuca, fisicamente. Mas o pincel machucou, porque me fez pensar tudo isso, porque eu pensei tudo isso de imediato, num lapso de memória ancestral pela sobrevivência. E depois eu saí um pouco de mim, tentei olhar pra frente, e me senti mal. Não estamos preparados pra olhar pra frente. Não estamos preparados para sentirmos o mal nascente que cada um guarda em si, e que cabe a cada um esconder em si, porque ficaríamos cegos se soubéssemos do que somos capaz quando somos ameaçados. E a aula era de Problema Social.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Sobre escrever

Escrever sobre escrever me parece não fazer sentido. Deveríamos escrever sobre a realidade, sobre o de fora da escrita, o que existe, não o que transparece. Mas às vezes me dá vontade de escrever sobre escrever justamente por não conseguir escrever o que gostaria. É que gostaria de estar escrevendo mais. E no entanto, não posso. Por que escrever não é profissão, obrigação, tem que ser necessidade. E por isso, não se pede, só se aceita quando é necessário. Ainda assim, existe aquí um paradoxo: é que quando é necessário escrever, é preciso querer, senão, não se escreve. E por isso me é tão difícil escrever, porque é preciso esperar esse momento exato em que há o que ser escrito, e que estou com vontade de escrever. E, outro paradoxo, ainda maior: há todo o momento, me vem uma necessidade de escrever, principalmente estando em contato com a realidade, mas nessa hora, em que sinto a necessidade pulsar, pela essência real que bate à porta da expressão, o que se imprime em mim é a vontade de apenas contemplar plenamente a existência. E então perco o momento exato. E quando à noite, como agora, me sento para escrever, não há assunto a tratar, senão a própria escrita.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Americano, Demasiado Americano

A posse de Barack Obama no último dia 20, e o seu discurso, mostraram o que muita gente parece ter se esquecido quando comemorou a eleição do primeiro presidente negro dos EUA como uma grande revolução: Obama só ganhou as eleições porque sua plataforma retórica - e agora a prática - estava baseada nos valores que os americanos consideram como fundamentais, incluindo aí o direito de se considerarem mensageiros supremos da democracia liberal, e o direito adjacente de impor a tal democracia a todos no mundo, o direito de decidir quem é e quem não é terrorista (apenas imagine o que os EUA teriam feito há alguns dias se fosse o Hamas, e não Israel, que estivesse usando fósforo branco contra a população civil), o direito - e o dever, eles pensam - de separar o mundo em uma metade boazinha e o Eixo do Mal. Enfim, o direito de serem os arautos da liberdade e paz mundiais.

Não que Obama seja idêntico a Bush, não chega a tanto, mas a diferença entre republicanos e democratas está nos meios e não nos fins. Em linhas gerais, principalmente em relação à política externa, Obama mantém os parceiros e os inimigos da Era Bush. Não sou eu quem está inventando, está no site da Casa Branca, já todo "barackizado" depois da posse. Ali fica claro a manutenção do mapa geopolítico desenhado por Bush: Israel continua como aliado, Irã e Afeganistão permanecem como inimigos. A energia nuclear de Teerã é uma ameaça à segurança mundial, mas os ataques indiscriminados de Tel Aviv contra a Faixa de Gaza e o movimento de colonização de judeus na Cisjordânia - incentivado pelo governo israelense - não são atos passíveis de condenação no Conselho de Segurança da ONU.

Obama promete retirar as tropas do Iraque em 18 meses, mas os EUA ainda vão continuar presentes para garantir a manutenção da ordem e da democracia, já que iraquianos são incapazes de governarem a si mesmos sem ingerência externa por muito tempo.

Essas palavras poderiam muito bem ter saído de uma boca texana: "
We will not apologize for our way of life, nor will we waver in its defense. And for those who seek to advance their aims by inducing terror and slaughtering innocents, we say to you now that our spirit is stronger and cannot be broken -- you cannot outlast us, and we will defeat you. "

Mas foram ditas sem o sotaque do sul por Barack Houssein Obama no discurso da posse. Foi um acontecimento histórico um país que tinha até poucas décadas um estatuto legal de racismo ter eleito um presidente negro, mas não nos esqueçamos que Obama é, antes de tudo, americano, demasiado americano.

domingo, 9 de novembro de 2008

Obama Wins!

A vitória de Barack Obama no último dia 4 representa, sim, um avanço democrático nos EUA. Isso não significa que o país seja, como sugeriram alguns jornais, o exemplo máximo e supremo de democracia mundial, a democracia mais consolidada do mundo, e blá blá blá com toda essa retórica.

A vitória de Obama representa um avanço com relação ao próprio sistema social americano, não com relação a política externa do país. Representa um passo adiante não porque os EUA sejam o pai mundial da democracia e tenham legitimidade e direito para invadir outros países sobre o pretexto de levar democracia.

É um avanço porque o mesmo país que nessa semana elegeu um negro como próximo presidente, tinha até menos de cinco décadas atrás um estatuto legal de racismo. E pensar que o racismo institucionalizado só fez fortalecer nos EUA nos anos seguintes à derrubada do racista-mor do mundo, Adolf Hitler, derrubado, vejam só, em grande parte pelos EUA.

O grande significado desta vitória está aí, na superação interna de traumas sociais, nada mais que isso. Não dá pra valorar o governo Obama a priori. Ele promete mudanças, se vai consegui-las é outra história. Mas o simples fato de que a maioria da população americana não é negra, já prova que algo mudou no pensamento das pessoas. Claro que ainda existem aqueles que pensam que melhor seria que a escravidão nunca tivesse acabado, mas já não são tantos para colocar McCain no poder, e uma possível Sarah Palin! Melhor nem pensar nessa hipótese.

Resta torcer para que Obama corresponda às expectativas daqueles que nele confiaram, talvez mais por rejeição a uma sequencia republicana do que por fé no democrata. Mas isso não importa. Obama wins! Uma família negra vai pela primeira vez ocupar a Casa Branca na área social e não na área de serviço. Quisera Martin Luther King estar vivo para dizer: "I got my dream!"

sábado, 7 de junho de 2008

Sobre Ticos e Tecos

Um Alien! Foi assim que me senti na última quinta-feira, 5, quando fui até o ICB (Instituto de Ciências Biomédicas) da USP para fazer uma reportagem para a disciplina de rádio (como só meus amigos lêem este blog, e olhe lá, não preciso dizer que faço jornalismo, mas dito isso, já disse o que não precisava dizer...).

Realizava-se nesse dia o Congresso do Núcleo de alguma coisa que tinha a ver com Neurociência, e eu fui cobrir especificamente uma palestra, intitulada: "How many neurons has a brain?", assim mesmo, em inglês. Vai saber porquê, já que o professor, Roberto Lent, da UFRJ, é brasileiro, e, creio eu, a maioria dos presentes também. Será que os neurônios entendem melhor na língua de Bush? Será? Achei que ele nem tivesse neurônios...

Resumindo a apresentação do professor Roberto (sabiamente proferida em português, o que exigia de Roberto tradução simultânea dos slides feitos por ele mesmo...): é consenso, na verdade um dogma da neurociência, que o cérebro humano tem algo em torno de 100 bilhões de neurônios. Como dogma, este número dispensa justificativas e é aceito por todos os cientistas da área há várias décadas. O professor Roberto é cientista, ou melhor, neurocientista, logo, aceitou esse número, e assim intitulou seu livro sobre os fundamentos da neurociência: "Cem bilhões de neurônios". Uma colega, Suzana Herculano-Houzel se instigou com o título e o questionou: "De onde vem esse número que todos consideram correto? Serão mesmo 100 bilhões?"

Encafifado com a dúvida de Suzana, Roberto resolveu tirar a história a limpo: através de um novo método desenvolvido por Suzana, e de um longo processo que não será detalhado aqui, chegaram a um número consideravelmente menor que o aceito como verdadeiro até então: nós, Homo Sapiens teríamos em nossa caixola algo em torno de 85 bilhões dessas celulazinhas que nos permite andar, sentir gostos, ver o mundo, e criar coisas malucas. Resultado: de uma tacada só perdemos 15% dos nossos estimados neurônios!!!

Além disso, a pesquisa concluiu também que, proporcionalmente, o homem não tem mais neurônios do que um rato ou um chimpanzé. Na linha evolutiva, temos a exata quantidade esperada para um grande primata. Somos bem menos do que pensamos...

Esse dado desfaz outro dogma da neurociência: de que nós, hominídeos, seríamos assim, hominídeos, por termos um córtex (a dita 'massa cinzenta' do cérebro) proporcionalmente avantajado em número de neurônios quando comparado a outras espécies, notadamente os outros mamíferos, sempre usados nesses estudos pela maior semelhança com nossas estruturas humanas quando comparados a aves ou répteis, por exemplo.

Não satisfeitos, Roberto e Suzana ainda quebraram outros dogmas cerebrais, para citar mais um: o de que o córtex é a região onde mais se concentra neurônios no cérebro. Na sua pesquisa, eles sugerem que, ainda que o córtex concentre o maior número dessas células, visto ser a parte mais volumosa do cérebro, o cerebelo (parte inferior do órgão) teria, outra vez proporcionalmente, mais neurônios.

Conclusão da uma hora de palestra (que, por incrível que pareça, prendeu minha atenção do início ao fim!): somos (você inclusive) macacões evoluídos e, com 15 bilhões de neurônios a menos, mais burros do que já aparentávamos ser. E de lambuja o córtex ainda perde o troféu de campeão dos neurônios para o cerebelo.

Aparentemente todo o trabalho que os professores Roberto e Suzana tiveram para chegar a um número mais preciso de quantos neurônios temos não muda muita coisa nas nossas vidas, já que tem muita, mas muita mesmo, gente por aí que não anda realizando a sinapse nem entre o Tico e o Teco...

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Diga-se de passagem que o gravador não cumpriu sua função na hora da entrevista com o professor Roberto (e eu fiquei sem graça de dizer isso a ele no meio da entrevista e cortar o seu entusiasmo.) Coitado, mal sabe que só os meus neurônios iriam decodificar o que os seus processavam naquele momento...

Assim, o intuito inicial de produzir uma reportagem para o rádio foi malogrado. Em compensação, aprendi tudo isso sobre nossas humanas cabeças!


domingo, 23 de março de 2008

PRIMEIRO SAMBA

Escreveu o ultimo samba
E saiu a andar pela rua
Subiu, desceu, foi, voltou
Olhou, entrou, saiu,
E não achou samba

Buscou o samba em cada esquina
Em cada mulher da rua,
Em cada tristeza espelhada
Nos rostos da madrugada,
E não achou samba

No mar, nem no ar
Não deu samba
Não fez ritmo
Não veio batuque,
Não achou samba

E saiu rodando mais pela cidade
O samba tinha que estar
Em algum, em alguém,
Em alguma, em qualquer
Beco deserto, havia de dar
Samba. Mas não deu
Samba

E voltou pra casa, sozinho
Sem samba, ainda achando que
Poderia achar pelo caminho
Perdido, seu samba,
Mas não deu samba.

Entrou, sem samba,
Em casa, tudo vazio.
Na cozinha, na sala,
No quintal, tudo
Sem samba.

No banheiro, no espelho rachado,
Nos pedaços de vidro,
Olhou, encarou, aprofundou,
Ensimesmou esse outro que via,
E não é que deu samba!

E, em seguida, no banho
De repente tomado,
Esfregou e enxaguou,
E o samba virou água no ralo
E, enfim, livrou-se do samba
Que tanto procurara

domingo, 2 de março de 2008

Origem

Da gente
- A Terra
É da gente!
Cadê essa gente?
- É da gente!

E quem pôs cerca no mundo?
- Foi a gente!
E agora a gente briga
pela Terra da gente

Porque tem gente
que ficou com tudo
e gente que ficou
com nada,
como a gente
que ficou de fora da cerca

E se o de-fora for do outro lado?
e a gente é que tá de dentro,
e eles de fora,
aí a Terra é toda nossa,
- Da gente!